1.11.11

Tem gente que reza — mas reza errado. Reza pedindo coisas, milagres, soluções para sua vida. Tem gente que faz uma listinha de quinquilharias, tranqueiras e miçangas pra Deus mandar, como se o Céu fosse uma lojinha de presentes que atende por Sedex. Rezar pedindo coisas não adianta porra nenhuma: Deus nem dá bola... Quando rezamos, temos é que oferecer algo para Deus. Assim é que se reza. Só assim que Ele nos ouve. Isso acontece com todos os Deuses. O Nosso não seria diferente.

Shiva é o Deus Supremo (Mahadeva), o Meditante (Shankara) e o Benevolente — onde reside toda a Alegria (Shambhu).

Na tradição hindu, Shiva é o destruidor — aquele que destrói para construir algo novo — motivo pelo qual muitos o chamam de "O Renovador" ou "O Transformador". As primeiras representações surgiram no período Neolítico (em torno de 4.000 a.C.) na forma de Pashupati, o "Senhor dos Animais". A criação da yoga, prática filosófica que produz profunda alteração física, mental e emocional, portanto intimamente ligada à Transformação, é atribuída a ele.

22.10.11

Evangelho de Tomé, 64

Estava na Bíblia:

Jesus gostava muito de festas.

Certo dia pediu Ele a um discípulo que convidasse alguns de seus amigos para jantar. Ao primeiro convite, o amigo respondeu: Hoje não é possível, tenho um compromisso: minha filha vai se casar e preciso conversar com o futuro genro. O segundo amigo disse: Peça desculpas ao mestre porque hoje não posso ir. Aluguei uma casa, espero o inquilino que virá pagar-me o aluguel. O outro também disse: Desculpas ao Mestre, pois "tenho compromisso, dinheiros a receber, alguém vai me trazer um cheque do Bradesco e tenho que ir depositá-lo no caixa eletrônico." Ao quarto convite o amigo mandou dizer que estava fazendo "a contabilidade das empresas, o contador viria mais tarde", coisas assim. O quinto convidado disse que havia um programa na TV a respeito da globalização, que lhe perdoasse o Mestre, outro dia, quem sabe. O último convidado também deu uma desculpa qualquer, esfarrapada, problemas na família, nos negócios, etc.
O discípulo voltou e fez um relato das razões furadas que os amigos alegaram para que nenhum deles viesse jantar.
Então Jesus disse:
— Negociantes jamais entrarão no Reino de Deus.

Nessa noite Jesus jantou sozinho. Chegou depois a chutar uma canequinha de lata que havia caído da mesa e voltou a dizer: "Seus putos!" E antes de dormir ainda fez questão de resmungar, virando-se de lado e puxando o cobertor:
— Vocês ainda não viram nada, seus putos!



Esta é a minha versão do versículo 64 do Evangelho de Tomé.

27.9.11

As parábolas de Jesus

Jesus falava sempre através de parábolas — que em grego quer dizer "desvio do caminho". Ele falava dessa forma por uma razão muito simples: era para não salvar todo mundo — mas só aqueles que tivessem sensibilidade suficiente para compreendê-las. As parábolas de Jesus são ícones. Ícones são signos produtores de informação. Mas o importante é que Jesus, o Filho de Deus, ouvia vozes — e as seguia. Ele arriscava.

Um gênio sempre arrisca!

Os Espíritos da Vida falam para todos — mas só o gênio consegue ouvi-los. Só os gênios e os loucos são capazes de lhes entender os códigos e traduzir-lhes as metáforas. E Jesus, o Louco, ousava — isso é inquestionável. Se Jesus seguisse só os conselhos dos mais velhos; se seguisse só o que a tradição Lhe mandava, teria sido apenas mais um marceneiro endividado na pobre e devastada Galiléia.

Um Deus sempre arrisca!

Jesus de Novo

Acabou o churrasco, todos já se foram. Jesus foi o último a sair, abraçado a Henry Miller — os dois de fogo. E já lhes avisei que hoje teremos um jantar à luz de velas, só para nós três. Disseram que virão.

Agora já é madrugada, e eu fico pensando. Será que você — que talvez não entenda como posso ter feito ontem um churrasco só pra mim — será que você nunca passou uma noite inteira lendo um livro, sublinhando palavras ao acaso, cotovelos apoiados na mesa, as mãos e um belo copo de vinho suportando a cabeça dançante? Será que você nunca passou uma noite inteira sozinho, deliciando-se com você mesmo, solto e alegre — sem saber nem como amanhecer? Pois então é preciso que eu te pergunte: Você é livre para vivenciar gostosamente a própria Solidão — se quiser — ou tem sempre que reparti-la com alguém?

O direito à solidão e a capacidade de exercê-lo plenamente são, para mim, mais importantes do que a solidão em si. Entretanto, quando eu falo em solidão me refiro, mais apropriadamente, à solitude — que é algo muito além do que apenas estar sozinho. Aliás, eu adoro companhia! Mas tem que ser companhia inteligente, libertária, excitante, criativa e, preferencialmente, sensual. Aqueles que não têm sensualidade transbordante não inspiram o meu tempo.

Bom ressaltar que isso não significa — de forma alguma! — que tem que haver sempre sexo entre nós. Acontece que as pessoas sensuais têm um estilo de vida mais agradável. São pessoas mais gostosas. E se são sensuais (além de libertárias, criativas, excitantes, etc.) é porque já se libertaram de uma série de outras amarras e preconceitos que costumam deixar as pessoas tristes, chatas, ranzinzas...

E a vida é muito curta para que a gente a desperdice assim, à toa.

Companhias humanas inteligentes, criativas, libertárias — sempre são deliciosas.

11.9.11

Musa tem que ser solteira

Tem gente que se casa com a Musa visando preservá-la. Mas isso é um tremendo erro de cálculo. Casar-se com a Musa é desperdiçá-la para sempre. Musas não suportam algemas de ouro no dedo anular. É impossível formalizar a paixão, prender o amor, engaiolar o desejo. Fazer um Contrato de Aventuras é uma contradição imperdoável. Enquanto a Musa pertence ao reino encantado da poesia e do romance — a esposa tem tudo a ver com prendas domésticas, geração da prole, bujão de gás e novela da Globo. Portanto, não queira nunca transformar a Musa em esposa. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

E a recíproca também é verdadeira: o príncipe encantado, antes de virar sapo, passa pelo estágio provisório de marido ou namorado. É só uma questão de tempo...

É só você se lembrar de como as coisas eram, no começo.

25.8.11

Se não for agora, quando...

Tem hora de parar — e tem hora de partir. Tem hora de permanecer quieto e calado num canto, e tem hora de cantar e de voar. E agora não é hora de dobrar as asas, nem de catar gravetos para fazer o ninho. Não é hora de buscar consolo, nem de caiar o túmulo (...) Portanto, não envenene com teu medo a minha dança. Seja só uma testemunha desta vertigem. Porque agora, agora é hora de voar. É hora de abrir-me a todas as possibilidades. E saltar num vôo livre e sem destino para dentro de mim mesmo.

Leia aqui o poema todo.

18.8.11

Noção de Timing

Não amadureça cedo demais, porque, se alguém te colher, você certamente será comida. Talvez até caia no chão antes do tempo — e apodrecerá também mais cedo. Portanto, não amadureça cedo demais. Permaneça verdinha, imatura, inocente...